Por Bete Jaguaribe

O Instituto Dragão do Mar (IDM) traz em sua concepção uma perspectiva de políticas culturais em que as dimensões da formação, criação e fruição articulam-se de forma orgânica e inovadora. O Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura – o CDMAC, equipamento gerador da própria criação do Instituto, foi pensado como um grande espaço de convergência artística, em que a experiência cultural ocorreria de forma integrada. A educação em artes ocupou a centralidade do projeto do CDMAC, com as atividades formativas sendo, inclusive, iniciadas antes da inauguração do próprio centro cultural, através do Instituto Dragão do Mar de Arte e Indústria Audiovisual do Ceará, uma escola múltipla de artes, criada em 1996, com uma forte ênfase em cinema. Dez anos depois, em 2006, o IDM passa a fazer a gestão da Escola de Artes e Ofícios Thomaz Pompeu Sobrinho, ampliando seu campo de atuação na formação artística. Em 2013, com a inauguração da Escola Porto Iracema das Artes, o IDM consolida-se como referência em políticas de formação em artes no Ceará. Atualmente, o Instituto mobiliza uma rede de experiências formativas, que inclui a Escola Vila da Música, sediada no Crato, a Escola de Gastronomia Social, além dos núcleos educativos dos equipamentos culturais.

Às vésperas de completar 30 anos de experiências acumuladas, como podemos contribuir com o pensamento sobre formação em artes?

As últimas três décadas foram marcadas por profundas transformações sociais, econômicas e culturais. A “aldeia global” de Marshall McLuhan, conceito formulado no início dos anos de 1960, foi radicalizada com os atuais avanços tecnológicos, aprofundando os desafios do mundo contemporâneo, especialmente em sua dimensão cultural. O que pode a formação artística, nesse contexto de super conexões, movidas pelos algoritmos da inteligência artificial? Como as políticas públicas de formação artística podem contribuir para pensarmos um modo de vida mais humanitário?

Reflito essas questões, num contexto de profunda perplexidade mundial, em que o sentido da palavra “verdade” atravessa um rubicão irracional, pautado pelas redes sociais. São engajamentos mobilizados por discursos de ódio, conteúdos que se ancoram na prática da dissonância cognitiva à exaustão. Uma estética da dissonância, da bizarrice, da incredulidade.

Mobilizo o conceito de “era transestética” (Gilles Lipovetsky e Jean Serroy), precioso para pensarmos o atual estado da cultura contemporânea. “Estamos no momento em que os sistemas de produção, de distribuição e de consumo são impregnados, penetrados, remodelados por operações de natureza fundamentalmente estética”- observam os pesquisadores, no largo estudo sobre o que chamam de “estetização do mundo”, num contexto em que as estratégias de mobilização das sensibilidades ganham centralidade no que definem de “capitalismo de hiperconsumo”. Para Lipovetsky e Serroy, um modo de funcionamento que explora racionalmente e de maneira generalizada as dimensões estético-imaginárias-emocionais tendo em vista o lucro e a conquista dos mercados. Um cenário que impacta todas as dimensões da vida social, como mostram as atuais crises climática, social e econômica.

Como pensar esse estado de coisas de ordem global, no âmbito das políticas culturais e, mais especificamente, no âmbito das políticas de formação em artes?

Talvez a primeira questão a ser considerada seja o reconhecimento honesto de que nossos sistemas educacionais não estão preparados para oferecer uma formação estética, capaz de lidar com as provocações do mundo contemporâneo, atravessado especialmente por uma precária relação com o tempo e as memórias. A partir daí, pensar um encontro definitivo entre os campos da Educação e da Cultura, com vistas a gerar experiências que enfrentem os desafios impostos pelo mundo contemporâneo. A construção de uma espécie de Pacto do Sensível, um compromisso capaz de mobilizar as estruturas de poder, a partir da parceria prioritária entre Educação e Cultura, na perspectiva de um grande esforço institucional com condições de atravessar outras áreas de gestão, como a assistência social, meio ambiente, saúde e segurança.

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1 LIPOVETSKY, Gilles e SERROY, Jean. A estetização do mundo: viver na era do capitalismo artista. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

A possibilidade de um modelo de desenvolvimento sustentável, justo e humano, está diretamente relacionada com uma experiência escolar que promova espaços de imaginação, de criação, que aprofunde as sensibilidades estéticas e culturais, base definitiva para o pensamento crítico e para as competências cognitivas necessárias para o exercício de qualquer ofício. A aproximação entre Educação e Cultura não é assunto novo e está na pauta de pesquisadores do mundo inteiro há muitas décadas, inclusive no Brasil. Organismos internacionais como a UNESCO e OEI vêm publicizando estudos e recomendações há tempos, ancorados em experiências bem sucedidas de alguns países. No entanto, chegamos a 2025, num completo estado de analfabetismo estético mundial, que coloca o planeta sob o perigo da dinâmica de uma indústria de conteúdo duvidoso, difundidos em rede mundial, sob o mando das Big Techs, que exercem um grande poder de influência na vida social do planeta. Atualmente, estamos imersos num trágico cenário, em que há um explícito alinhamento dos gigantes da tecnologia com o fascismo, numa ameaça clara à democracia no mundo.

A quem cabe esta tarefa de construção de um Pacto do Sensível? Essa é a grande questão, considerando o esforço hercúleo que requer a articulação de um movimento que, necessariamente, tratará com o peso das institucionalidades e dos poderes.

Obviamente que a liderança desse processo cabe às superestruturas responsáveis pelas grandes políticas públicas estatais, como Ministérios e Secretarias, porque requer recursos financeiros, materiais e científicos. Mas é de fundamental importância a compreensão de que essa é uma tarefa coletiva, política e urgente. Todos nós que temos algum tipo de responsabilidade, no âmbito dos sistemas públicos e privados de educação e cultura, devemos assumir essa agenda como prioritária. Imagino a mobilização de redes de comunidades educativas e artísticas, que se criam em ambientes dos mais diversos, desde os mais tradicionais, como as Universidades, as escolas, espaços culturais, aos mais livres em termos de organização, como os coletivos e os grupos artísticos. O fato é que devemos encontrar formas de interferir nesse processo contemporâneo de precarização da vida sensível, a partir do nosso lugar de existência, seja ele qual for. O contrário disso é subjugar-se à dinâmica perversa das redes sociais, que se consolidam como referências de (des)informação e padrão estético. Uma esfera de legitimação de discursos de ódio e violência.

E uma instituição com a tradição do IDM não deve abrir mão do papel a que essa realidade lhe convoca a assumir.

Seja na construção de diretrizes e instrumentos de gestão capazes de qualificar as experiências e processos pedagógicos na rede de escolas e equipamentos sob sua responsabilidade, mas, muito especialmente, no compromisso político de contribuir com uma agenda pública sobre a urgência estratégica de um projeto de formação artística no estado e no país.

Esse desafio demanda, por fim, a compreensão de empreendermos todos os esforços para instaurar a formação artística como pauta central das políticas de cultura e educação. Uma formação artística claramente inspirada em Paulo Freire, que tenha como objetivo refletir sobre seus contextos, na perspectiva de transformá-los. Portanto, uma formação artística que mobilize novas sensibilidades acolhedoras da diversidade em seu sentido mais completo, especialmente no que se refere à diversidade de visões do mundo. Importante acentuar que a educação em artes não é a panaceia para todos os males da vida contemporânea e nem é sua responsabilidade salvar o mundo. Mas não restam dúvidas sobre seu papel estratégico na formação de um pensamento complexo, capaz de contribuir com a criação de novas perspectivas de existência.